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Revista Eletrônica sobre Acesso a Dados · eISSN 2763-7875

Análise da geração de empregos por influência da cultura do café na região da alta mogiana

Publicado em v. 5, n. 1 (2024)

Autores

  • Gabriel Mongelos Maidana UNESP/Tupã
  • Hellen Aparecida de Souza Pereira UNESP/Tupã
  • Laís do Nascimento Santos UNESP/Tupã
  • Pilar Casaletti Gonçalves de Souza UNESP/Tupã
  • Thomas Carmona Pires UNESP/Tupã

Resumo

A lenda de Kaldi sugere que a descoberta do café ocorreu na Etiópia em 850 d.C. No Brasil, o cultivo do café teve início em 1727, tornando o país o maior produtor e exportador mundial. A Alta Mogiana, com 120 mil hectares dedicados ao cultivo do café, destaca-se na produção de Coffea canephora e Coffea arabica, sendo fundamental para a economia local e gerando empregos formais e informais. O estudo analisou a geração de empregos na Alta Mogiana, utilizando dados de fontes acadêmicas e institutos de pesquisa. A mecanização da produção entre 2006 e 2017 reduziu em 36,3% o número de trabalhadores na região. Cidades como Pedregulho foram as mais afetadas. A modernização tecnológica continua a impactar negativamente a empregabilidade rural, exigindo adaptação econômica e políticas públicas para mitigar a vulnerabilidade social dos trabalhadores.

Palavras-chave

Alta MogianaCaféEmpregosConilonArábica

Texto completo

1 Introdução

Segundo a lenda de Kaldi, havia um pastor na Etiópia, durante o ano de 850 d.C, que percebeu que suas cabras ficavam mais enérgicas, após a ingestão de um fruto avermelhado, que posteriormente, descobriu-se ser a cereja do café. Já no Brasil, as primeiras mudas foram cultivadas em 1727, no norte do país, porém, não houve o desenvolvimento esperado devido ao clima da região, e foi somente na região sudeste, que o café se perpetuou como um grão de extrema importância econômica e agrícola. Dito isso, ao longo dos anos, o café se tornou um insumo que carrega consigo, grande notabilidade para a economia nacional e para as cidades em que há uma produção expressiva do produto citado. Além disso, o café figura o Brasil como maior produtor e exportador do grão. A região sudeste do país caracteriza-se como responsável por grande fatia da produção de café, principalmente das espécies Coffea canephora (ou connilon robusta) e Coffea arabica (café arábica). De forma mais direcionada, a região sudeste é responsável de forma anual, pela produção de 4,5 milhões de sacas de café em 200 mil hectares (PIAI, 2024) e a região da Alta Mogiana, que abrange 15 municípios, tem 120 mil dos 200 mil hectares da região sudeste. Com esse contexto, é possível observar que a região da Alta Mogiana tem uma grande relevância para com o desenvolvimento e crescimento da cultura do café. Além disso, essa região é tida como uma grande geradora de empregos informais e formais no mercado cafeeiro. A Alta Mogiana perpetua o trabalho de pequenos produtores familiares, que se tornam maioria na produção de café. Estes, têm pequenos espaços de terra, onde há o cultivo do grão, para que ao fim do processo produtivo, haja renda suficiente para o sustento da família. Outrossim, as colheitas e produções empresariais, contratam uma mão-de-obra barata, que pode ou não, ter especializações, mas, os trabalhadores constantemente têm experiência em lavouras de café. Em suma, a produção familiar e empresarial, contabilizadas juntas, geram um expressivo número de novos empregos na região da Alta Mogiana.

1.1 Questão-chave

Como está a geração de empregos por meio da cultura do café na região da Alta Mogiana?

1.2 Metodologia

A coleta de dados foi realizada por meio de fontes bibliográficas e pesquisa documental, com base em informações secundárias disponíveis em bancos de dados acadêmicos, tais como Scientific Electronic Library Online (SciELO) e Periódico da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), além de sites governamentais e portais especializados, a exemplo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Café (Embrapa Café) e do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café). Esses dados secundários desempenharam um papel fundamental ao fornecer um panorama prévio do tema, considerando as discussões já apresentadas por outros autores em estudos anteriores (Menezes, 2021). Com o intuito de obter uma compreensão abrangente do tema, optou-se pelo método exploratório. Aprofundando a análise, foram selecionados municípios representativos na Alta Mogiana, como Franca, Pedregulho e Patrocínio Paulista, como instrumentos de pesquisa.

2 Desenvolvimento

2.1 Coleta

Desde a chegada do café no Brasil, em 1727, este tem desempenhado um papel fundamental na geração de riquezas e no desenvolvimento econômico. Atualmente, o grão continua a ser um ator importante na economia brasileira, principalmente por ser responsável por uma parcela significativa das exportações do país, com um volume anual de cerca de 26 milhões de sacas, que resultam em aproximadamente US$2 bilhões em receita. Essa contribuição corresponde a mais de 2% do total das exportações brasileiras e representa mais de um terço da produção global. O setor cafeeiro é uma cultura ampla, que está em constante crescimento e que representa um mercado global que movimenta aproximadamente U$91 bilhões de dólares por ano, vendendo em média 115 milhões de sacas de café produzidas. Esse ramo engloba uma rede de cerca de meio bilhão de indivíduos, desde os produtores até os consumidores finais. O Brasil, que representou mais de 30% da produção global nas últimas colheitas, é responsável pela criação de mais de 8 milhões de postos de trabalho diretos e indiretos no país, sendo o segmento do agronegócio brasileiro com maior número de empregos. O progresso tecnológico na produção de café no Brasil está sendo impulsionado por organizações dedicadas à pesquisa e desenvolvimento, que agora estão reunidas sob a coordenação do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D/Café), liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) por meio de sua filial, a Embrapa Café. Dito isso, a região da Alta Mogiana é composta por algumas cidades as quais contribuem para a produção de café. Entre elas, estão: Cristais Paulista, Franca, Itirapuã, Jeriquara, Patrocínio Paulista, Pedregulho, Restinga, Ribeirão Corrente e São José da Bela Vista. Segundo os dados disponibilizados pela CONBEA (Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola), entre os anos de 2006 e 2017, o número de trabalhadores inseridos na produção cafeeira dessas cidades foi prejudicado devido à mecanização da produção, entrada de novos equipamentos e maquinários, como colheitadeiras e tratores. A seguir, demonstram-se a quantidade de funcionários da produção cafeeira nos anos de 2006 e 2017, respectivamente, de cada cidade: Cristais Paulista (38 e 15), Franca (88 e 46), Itirapuã (6 e 4), Jeriquara (23 e 31), Patrocínio Paulista (13 e 4), Pedregulho 217 e 33), Restinga (33 e 9), Ribeirão Corrente (17 e 24) e São José da Bela Vista (36 e 5). Desta forma, destaca-se uma queda de aproximadamente 36,3% de trabalhadores neste intervalo em toda a região. A cidade de Pedregulho, por exemplo, foi a que mais perdeu trabalhadores em decorrência dessa situação, tendo um salto de 217 para 33 funcionários, o que totaliza uma perda de 184 pessoas. Além disso, ressalta-se que existe uma tendência em que os contratados para exercer funções colaborativas na produção são, em sua maioria, analfabetos e com faixa etária entre 50-64 anos. Os dados relacionados à idade dos trabalhadores justificam-se pela maior experiência dos indivíduos, o que pode servir para poupar esforços de treinamentos futuros para novos colaboradores, o que pode ser substituído por ensinamentos dos antigos trabalhadores de maneira informal.

2.2 Análise

O café no Brasil é uma cultura que desde a sua chegada empregou muitas pessoas, considerando brasileiros nativos e até mesmo imigrantes, estes principalmente durante a época das guerras mundiais. O avanço das tecnologias agrárias é uma realidade crescente que impactou não só a cultura do café, como muitas outras. Isso acontece desde o período que se iniciou o êxodo rural, por volta de 1960, onde os trabalhadores rurais deixam o campo por conta da mecanização da produção e vão buscar por empregos na cidade. É importante citar que a questão da empregabilidade sobre a produção do café não está somente atrelada ao ambiente de produção, mas sim à toda logística criada na região da Alta Mogiana para permitir a ascensão dessa commodity. Um exemplo disso é a criação de linhas férreas. Para que o café fosse escoado para o porto, principalmente na época do império, o principal meio de transporte eram as ferrovias, que percorriam toda a região da Mogiana desde Campinas até o estado de Minas Gerais. Essas linhas férreas permitiam a empregabilidade da população num contexto indiretamente relacionado ao café. Dessa forma, empregos nas áreas de construção, manutenção, operação de máquinas e operação de ferrovias surgiram como uma alternativa para a população da época. Entretanto, com o decorrer do tempo, o país deixou de investir em ferrovias para investir em rodovias, limitando consideravelmente a questão da empregabilidade para essa área. Conforme os dados apresentados na coleta, é possível observar que ainda hoje, há mais de 60 anos após o início do êxodo rural, a empregabilidade no campo segue em uma linha decrescente. É interessante interpretar que o trabalhador rural possui um perfil que não proporciona muitas oportunidades fora do campo, já que o profissional sem formação acadêmica e por vezes analfabeto não tem muitas opções de trabalho. Isso mostra que a mecanização do campo não é um fator exclusivamente produtivo, mas também humano, a partir do momento que coloca o trabalhador que depende disso em uma situação de vulnerabilidade social. Vale ressaltar que mesmo o café sendo um cultivo completamente atrelado à cultura brasileira, isso não significa que o seu retorno produtivo também esteja atrelado a um ganho para os brasileiros. Conforme citado, o café foi capaz de gerar US$2 bilhões em receita para o país, e mesmo assim os dados mostram em sua linha temporal de empregabilidade que o pequeno produtor que reside no país está cada vez mais desempregado. Para a região da Alta Mogiana, a redução dos empregos promovidos pelo cultivo dessa commodity muda a configuração econômica das cidades. De uma maneira gradual, as cidades que cresceram às margens da produção de café passam a ter que desenvolver sua área urbana de forma acelerada, já que a oferta de empregos deve acompanhar o crescimento da demanda. Um exemplo disso é a cidade de Franca, que em 2012 ganhou o selo oficial de capital nacional do calçado masculino de couro. Essa cidade, que é uma referência na produção do café da Alta Mogiana, a partir do momento histórico que contou com a diminuição da empregabilidade do campo, passou a aumentar a empregabilidade nas grandes indústrias de calçados, com a utilização do couro. Isso mostra um exemplo claro de um contexto social, atrelado ao trabalho, de como uma cidade pode se comportar ao sofrer com a diminuição da mão de obra em determinado setor produtivo agrícola.

3 Desdobramentos

Em suma, a partir da análise dos dados é possível prever o crescimento da situação atual de baixa empregabilidade para os trabalhadores inseridos no cultivo de café. A análise realista ressalta que essa situação já acontece há um tempo e conforme a mecanização do campo aumenta e se espalha, tende a continuar. Junto a isso, a realocação dos trabalhadores rurais também é um fator que deve se manter, encerrando um ciclo de êxodo rural nos próximos anos. Essa realocação continuará a promover nos próximos anos a mudança na configuração econômica das cidades, porém com uma velocidade mais devagar, já que a maior parte da mão de obra do café, já se realocou quando esse processo teve o seu início e seu auge por volta de 1980. Vale ressaltar que a mecanização no campo e nas plantações de café torna-se cada vez mais expressiva, por reduzir custos com a mão de obra terceirizada e por aumentar a produtividade das lavouras. Dessa forma, a região da Alta Mogiana, que ainda gera um notável número de novos empregos, poderá num futuro próximo, ser altamente prejudicado pelo crescimento de máquinas automatizadas que não dependem de mão de obra humana.

Figuras

  • Análise da geração de empregos por influência da cultura do café na região da alta mogiana

  • Análise da geração de empregos por influência da cultura do café na região da alta mogiana

Referências

BELLINI, F.B; PATINO, M.T.O. A mecanização na produção de café na Mogiana Paulista e seu impacto na mão de obra e nos custos. XLVIII Congresso Brasileiro de Engenharia Agrícola, 2019. Disponível em: http://onbea.org.br/anais/publicacoes/conbea-2019/livros-2019/mma-maquinas-e-mecanizacao-agricola-11/30-a-mecanizacao-na-producao-de-cafe-na-mogiana-paulista-e-seu-impacto-na-mao-de-obra-e-nos-custos/file. Acesso em: 19 mai. 2024

CONSELHO NACIONAL DO CAFÉ. Brasil: a nação do café. Disponível em: https://cncafe.com.br/cafe-do-brasil-historia/. Acesso em: 19 mai. 2024

EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. A importância do café nosso de todos os dias, 2005. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/17987068/a-importancia-do-cafe-nosso-de-todos-os-dias. Acesso em: 19 mai. 2024.

GUIMARÃES, C. Secretário de Agricultura de SP participa do maior evento de cafeicultura da região Alta Mogiana. Secretaria de Governo do Estado de São Paulo, 2024. Disponível: https://www.agricultura.sp.gov.br/pt/b/secretario-de-agricultura-de-sp-participa-do-maior-evento-de-cafeicultura-da-regiao-da-alta-mogiana. Acesso em: 19 mai. 2024

MENEZES, S. Fontes de Informação: definição, tipologia e confiabilidade. Biblioteca da Escola de Engenharia UFRGS, 2021. Disponível em: https://www.ufrgs.br/bibeng/fontes-de-informacao-definicao-tipologia-confiabilidade/. Acesso em: 19 mai. 2024.